Os limites das LLMs
PhotoCraft, REA e um port novo de game toda semana convenceram muita gente de que a Adobe morreu e os programadores são os próximos. Eu li o código e os números. Sete pontos curtos sobre o que a IA copia bem e o que ela não consegue.
LLM consegue replicar o que é aberto, mas não adivinha o que é privado.
Copiar o que já é público
Os modelos aprenderam com código público. Quando algo parecido foi publicado, um agente reconstrói rápido e barato.
- 81,5%
- das contribuições no GitHub acontecem em repositórios privados (Octoverse 2025)
- 67,5 TB
- de código público no The Stack v2, o tipo de dado com que os modelos treinam
- Por isso uma pessoa sozinha hoje consegue lançar um cliente nativo de Spotify ou WhatsApp em Rust. O serviço, as bibliotecas e o caminho já existiam. Refazer um caminho conhecido ficou barato.
- O código que paga salários é quase todo privado. Nenhum modelo viu esse código, e nenhum modelo consegue adivinhar.
- Onde não existe nada parecido, o agente cai na tentativa e erro. O que ajuda é o que falta ao modelo: referências que ninguém publicou, um oráculo que diga o que é certo e testes com alvos objetivos.
Desmontar binário é coisa de 40 anos
Todo emulador que você já usou existe porque alguém desmontou um binário. A IA entrou numa linha de montagem que já estava rodando.

- Os tribunais americanos resolveram o básico em 1992 (Sega v. Accolade) e em 2000 (Sony v. Connectix): desmontar código pra entender como ele funciona é fair use.
- As ferramentas são maduras, e muitas são gratuitas. A NSA liberou o Ghidra em 2019, o mesmo ano em que a decompilação do Super Mario 64 ficou pública.
- Decompiladores com LLM escrevem código mais legível que os comerciais, com 52% menos correção funcional (DecompileBench, 2025). Os assistentes usados de verdade dão nome às variáveis em cima do que o Ghidra ou o IDA produziram.
- O REA, com quase 200 mil estrelas no GitHub, entrega essas mesmas ferramentas pro seu agente. Você precisa do binário, das ferramentas instaladas e de muito token: o próprio teste dele com SQLite levou 42 chamadas de ferramenta e 300 mil tokens de entrada. A documentação manda nunca dizer que ele clona um programa.
Por que os games antigos caem primeiro
Sai um port retrô novo quase todo dia. Games antigos têm todas as vantagens que um produto vivo não tem.

- O binário é minúsculo. Super Mario 64 tem 8 MB. Baldur's Gate 3 tem 150 GB.
- O hardware foi mapeado instrução por instrução ao longo de 25 anos, e o alvo nunca muda. Ninguém está atualizando o Zelda de 1998.
- PS4, PS5, Xbox e Switch são PCs ou celulares em outra carcaça. Seu processador já roda o código deles, e Wine, DXVK e Proton resolveram a maior parte da tradução gráfica anos atrás.
- A IA acelerou o trabalho braçal. Os desenvolvedores dos recomps de Zelda e Banjo chamam os ports feitos por agente de "slopcomps": sem testes, e remendados de um jeito que complica a manutenção.
Um screenshot do Photoshop
O PhotoCraft parece Photoshop num screenshot. O que as pessoas pagam pra Adobe mora em outro lugar.

- 968
- issues abertos no PhotoCraft, lidos em 13 de outubro de 2026
- 13
- dias depois da criação do repositório
- O PhotoCraft foi escrito em Rust com Claude. O próprio README diz early alpha. Imagens acima de 8.192 pixels caem pra CPU, o gerenciamento de cor é básico, e uns 100 issues abertos são sobre arquivos PSD.
- O Generative Fill e vários Neural Filters rodam nos servidores da Adobe. Esse código nunca chega na sua máquina, então não tem nada pra desmontar.
- O Camera Raw carrega 20 anos de perfis pra cada câmera e lente. Um clone tem esses dados ou não tem.
- Cor de impressão é um campo à parte. O GIMP nasceu em 1995 e ainda não edita CMYK na versão 3.0. As cores Pantone são licenciadas, e até a Adobe perdeu elas em 2022.
- A maior parte do software hoje roda como serviço. O código por trás do Google Docs nunca sai dos servidores do Google, então nem existe binário.
O PhotoCraft hoje é aquela réplica de Ferrari montada em cima de um Fusca: a carroceria tem a forma certa, você tira uma foto e a maioria das pessoas diz "uau, uma Ferrari". Aí você liga e sai o motor de Fusca.
Quanto custa uma reescrita grande
O melhor número público vem do Bun, o runtime de JavaScript, reescrito de Zig pra Rust com agentes em maio de 2026.

- US$ 165 mil
- a preço de API
- 11
- dias, 535 mil linhas de Zig
- 64
- agentes Claude no pico
- Funcionou por quatro coisas: o próprio autor do Bun no controle, o fonte completo funcionando, uns 60 mil testes por plataforma pra conferir cada mudança, e a Anthropic, dona do Bun, pagando.
- O compilador C da Anthropic, fevereiro de 2026: 16 agentes, menos de US$ 20 mil, e ele compila o Linux. Ainda pega emprestado o assembler e o linker do GCC, e o código que ele gera roda mais devagar que o do GCC com todas as otimizações desligadas.
- Um clone do Photoshop não tem nenhuma das quatro. Não tem fonte pra portar, não tem suíte de testes que diga "igual ao Photoshop" e não tem autor. E o Photoshop é um produto de 36 anos, muito maior que um runtime.
"Em dois anos vai ser de graça"
O preço dos melhores modelos quase não mexeu desde 2023. O que caiu rápido foi o preço de um nível de qualidade que já ficou velho.
- US$ 60
- por milhão de tokens de saída, GPT-4, março de 2023
- US$ 50
- por milhão de tokens de saída, os melhores modelos, outubro de 2026
- A fronteira ficou de 1,2 a 3 vezes mais barata em três anos e meio, dependendo se são tokens de entrada ou de saída.
- Um nível fixo de qualidade fica umas 5 a 10 vezes mais barato por ano, pela estimativa da Epoch AI, e eles esperam que isso desacelere.
- Faça a conta no Bun: US$ 165 mil dividido por 100 dá US$ 1.650, pra um port com o fonte, os testes e o autor na mão. Barato e trivial são coisas diferentes.
- Os modelos em si convergiram, e os ganhos recentes vieram das ferramentas de agente em volta deles. Eu explico isso na página de AGI.
Programador morreu?
Toda reescrita e todo decomp que funciona tem um engenheiro no controle.
- +15%
- nas vagas de software nos EUA desde o lançamento do Claude Code em fevereiro de 2025, enquanto o total de vagas caiu 7% (Indeed, julho de 2026)
- 71%
- desse crescimento veio de vagas sênior
- As vagas de software ainda estão uns 27,5% abaixo de fevereiro de 2020. Menos gente é contratada pra digitar. Quem sabe julgar o resultado continua sendo contratado.
- Reescrever o Bun precisou do autor do Bun. Os decomps que funcionam têm gente que conhece o hardware pilotando o agente.
- No meu benchmark com 7 linguagens, dar testes pros modelos mais fracos mudou mais os resultados do que qualquer linguagem.
- Engenharia reversa ficou mais barata e mais acessível, como ficou quando o Ghidra saiu em 2019. Continua sendo trabalho de engenheiro.
Manchete de "acabou" rende clique e não compila.
As conclusões
- 1
A IA copia rápido o que é público. A maior parte do código que importa é privada.
- 2
Engenharia reversa existe há décadas. Os agentes aceleraram o trabalho braçal.
- 3
Games antigos caem primeiro: são pequenos, mapeados há décadas e nunca mudam.
- 4
O screenshot de um clone é fácil. Os serviços na nuvem, os dados e as licenças não estão em binário nenhum.
- 5
A reescrita do Bun precisou do autor, do fonte, dos testes e de US$ 165 mil.
- 6
Os melhores modelos quase não ficaram mais baratos, e convergiram.
- 7
O trabalho que cresceu é julgamento: testes, oráculos e review.
Tudo aqui é open source
As ferramentas, as skills e o benchmark são repositórios públicos. Faça um fork e monte a versão que encaixa no seu jeito de trabalhar.